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LEMBRANÇAS DO " MATEL "

foto de Augusto Froehlich

A obra que está sendo feita nos fundos do prédio da PMAB (Prefeitura de Búzios), cabe questionar se o avanço sobre o resquício de mata atlântica (?!) foi "planejado" e licenciado. Estão sendo cortados arbustos típicos, como a extinguível Aroeira, que obviamente ali já é pouca.

A título de lembrança cultural, vou lhes contar o valor que aquele local tem para nós, nativos.
Tal gleba, onde hoje se instalaram o Fórum e a PMAB, era chamada de "Cambuím", em referência a um arbusto de frutinhas miúdas e saborosas autóctones da Região, e também hoje rarefeita.
Por ali passávamos para caçar Saracura, Piaçoca, Frango-D'água, Picaparra e as Sabiás-Poca, que eram abundantes ao derredor das pequenas lagoinhas do lugar, chamadas "brejo", pelos nativos.
Note-se que a caça, banida pelo "progresso", não foi tão danosa do que o próprio, contra a citada fauna. Até porque não se caçava endemicamente, sendo tal atividade resquiciosa de outros tempos, mais 'indígenas'...
Mas não era isso o teor do caso, no que retomo o viés a seguir.
Sabe-se que nesta 'vila tardia' nunca houve motel. Era ali no Cambuin então o "matel".
A cantada mais despudorada de "retrofanqueiro" do então era "vamo lá no Cambuim?".

Pois bem: Muitos rapazotes de agora foram cunhados ali, entre uma e outra fruta de duas conotações...
Tal saudade me dá daquele tempo, quando passo por ali indo ao trabalho de manhã, e deparo-me com o "barreiro" (talude) sobre o qual folheei a minha primeira revista pornográfica, e onde muita gente fez algumas de suas primeiras 'coisas'...

Então vejo os arbustos sendo desmatados e, por mais que talvez "autorizadamente", parece-me que a história vai embora. Daí não podermos julgar o "progresso" sem um exercício de imersão numa tal cultura. É preciso humildade para aceitar que às vezes, o "conservadorismo" (tipo como "atraso", por urbanoides), pode estar preservando valores maiores do que o processo econômico tradicional, que, às cegas, almejamos. E também é preciso desprendimento meu, para engajar-me naquilo que me propôem "desenvolvimento". Sei que é a Prefeitura a fazê-lo. Espero que o tenham sob controle.
Antes de que me esqueça, o Cambuim também era muito usado para "temperar" cachaça. Ficava ali se "curtindo" numa pinga barata, e valia algo mais do que o normal. Viam-se aquelas garrafas encardidas cheias de galhinhos, e não havia gringo que não perguntasse "¿qué es?"... Imagine o infortúnio de contar a gringo toda a história afrodisíaca daquela frutinha...
Abraço.
Bil

fonte: email enviado por Bil

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