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SURF, GERIBA, HISTORIA E SUSTENTABILIDADE

Por Túlio Mourão



Vavá era um bom surfista amador da década perdida. Jamais fui amigo dele, mas tínhamos ondas em comum.

Certo dia, quando eu corria para um surfe no fim de tarde na praia de Geribá, em Búzios, vi o cara andando na areia com um saco de lixo na mão. Sem prancha.

Fiquei instigado com aquela cena. Apurei com amigos em comum, e descobri que, em pleno fim dos anos 80, quando ninguém falava a palavra sustentabilidade, ele resolvera catar o lixo dos porcalhões que sujavam a areia da praia.


Seu alvo era o pequeno resíduo, aquele que os garis não conseguem limpar, mas que podem tornar a areia um ambiente inóspito.

Era a primeira vez na vida que eu via uma ação voluntária, direta e sem intermediários, de construção de um mundo melhor, sendo empreendida por um surfista.


Aquela cena me ajudou a perceber a importância dos surfistas nas questões ambientais da costa brasileira.

Corta para janeiro de 2012. Lembrei de Vavá ao chegar em Búzios com as crianças. A impressão, ao chegar em Geribá, é que seriam necessários muitos caras como ele para mudar a percepção da importância de um ambiente limpo e equilibrado.

A areia estava repleta de guimbas de cigarro, tampas de pet, espetos de churrasco, papel de bala e outros itens. Bastava andar um pouco mais para ver cafonas conjuntos de ombrelone e cadeiras de praia. Quem quisesse usá-los, teria que pagar a módica quantia de R$ 30. Tudo isso autorizado pelo prefeito, segundo os autônomos que exploram o pedaço.


Fui a Búzios atrás de um pedaço da adolescência e presenciei um mar de pequenos resíduos e o loteamento criminoso de espaço público. Isso apenas na faixa de areia.

Não consigo culpar a massa de turistas que invade os balneários. Eles não foram educados para fazer diferente, não seguem regras porque elas não existem ou são frouxas.

Nos tempos de repórter setorista de meio ambiente, cansei de fazer reportagens em Búzios sobre ocupações de topos de morro, de encostas acima de 45 graus ou até de unidades de conservação de proteção integral. Algumas praias – poucas, por sorte – já sofriam os efeitos do velho conceito de progresso, reinante no século XX: crescer a qualquer custo.

Em outras palavras: o poder público tem parte importante nos problemas de Búzios.

Saí de lá com a certeza de que os surfistas podem fazer mais. Somos abençoados pela vocação de descobrir paraísos. Abrimos as primeiras trilhas de balneários hoje presentes em guias internacionais de turismo, como Itacaré, Guarda do Embaú e Búzios (muito antes de Brigitte Bardot). Como descobridores, temos vários direitos, mas também alguns deveres.

A maior parte das praias de Búzios ainda está conservada, apesar da ocupação desordenada. Itacaré sofre, mas resiste ao turismo predatório. A Guarda do Embaú virou alvo da cobiça de especuladores imobiliários, mas a praia e a boca do rio ainda estão lá, intactas.

Ainda há muito o que proteger. Há esforços pontuais, como o de Vavá, desde os anos 80, e o de João Malavolta, que hoje toca a ONG Ecosurfi. Mas estou certo de que podemos ser mais efetivos, cada um na sua seara, sem sair da especialidade, e todos juntos na luta pela sobrevivência dos paradisíacos balneários brasileiros.

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