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PRANCHA NA AREIA NA PRAIA DE GERIBA SEDUZ GAROTO INCOMUM

Amuleto



Por Túlio Brandão


Era um Natal solar em Búzios. A família toda reunida, aquela viagem que você leva a prancha por vício, e não se importa muito com as esperadas ondas minúsculas.  Ali, estava mais preocupado em não esquecer as fraldas da filha.


Na casa em Geribá, tinha um velho longboard, decorado por tecos, mas inteiro o suficiente para se transformar no principal brinquedo de todos – das crianças aos avós.

O pranchão não saía da água. Era o sobrinho surfando de frontside para os dois lados, a irmã que lembrou os tempos de bodyboarder para entrar no corte, a filha nas primeiras remadas, a mais nova deitadinha com a ajuda do pai.

No meio da farra, quando a turma pediu arrego e deixou a prancha descansar um pouco na areia, apareceu um garoto. Short puído pelo tempo, pele curtida de quem trabalha na praia e com cara de quem não passava de dez anos, ele vendia camarão frito com a mãe quando foi hipnotizado pelo longboard deitado à sua frente.

A fibra amarelada, os tecos mal tapados com parafina, a rabeta em carne viva... Nada ali atrairia um garoto comum. Mas, para ele, a velha prancha no meio do caminho era um sonho, um presente de Deus. O garoto faria tudo para ter um momento com ela. Até vencer a timidez.

Olhou para baixo, mas na minha direção e, voz miúda, arriscou uma pergunta singela: “Posso pegar uma onda?” A frase, dita em outro contexto, provocaria desconfiança. Afinal, ninguém pega apenas uma onda.

Truque velho. Mas, ali, naquele momento, o pedido tinha uma pureza desconcertante, encantadora. Respondi, de pronto: “Uma, não. Várias. Vai lá.”

O garoto se encheu de felicidade, deixou o brilho dominar seus olhos e saiu arrastando aquele enorme pedaço de fibra até alcançar o mar. Lá dentro, a surpresa: o garoto ignorava o corpo franzino, botava a enorme prancha no corte e até arriscava alguns arcos na parede. Era nitidamente o melhor de todos os surfistas de sua geração na praia.

Meia hora depois, a mãe o chamou na água. Ele saiu da água modificado. Tinha outra expressão, parecia mais confiante, menos tímido. Parecia mais vivo.

Na hora de agradecer, olhou para mim, desta vez com firmeza, nos olhos. Tirou do pescoço um colar com um pingente de madeira em forma de prancha e me entregou. “É para você, por ter me emprestado a prancha.” Fiz menção de não aceitar, mas senti que não havia espaço para isso. Ele parecia ter planejado tudo. O presente era parte da história.

Fiquei feliz, senti que havia experimentado um momento especial.

Pouco depois, pedi à mãe o endereço da família. Voltei ao Rio decidido a pegar minha prancha aposentada e levar até o garoto. Na primeira oportunidade, separei a prancha, botei na capa e estava pronto para fechar o ciclo, mas o espírito caótico me traiu.

Revirei a casa, busquei o pedaço de papel em livros e nada. Tinha a vaga lembrança de que o garoto morava em algum lugar na estrada que leva a Cabo Frio. Era pouco.

Restou, para mim, a gratidão pública pelo presente, que, de tão simbólico, virou um amuleto, uma reverência particular ao mais puro espírito do surf existente na Terra.

Tulio Brandão é jornalista, colunista do site Waves e autor do blog Surfe Deluxe.

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